Três Orixás (1966), Djanira


Por Sidney Falcão

O Brasil é um mosaico cultural no qual diversas tradições se entrelaçam, e a herança africana ocupa um papel de destaque nesse panorama. Durante o período colonial, a diáspora africana viu suas crenças e expressões culturais ressignificadas em um novo território, originando manifestações religiosas e artísticas de grande impacto. O Candomblé, por exemplo, emergiu como uma síntese dessa adaptação, consolidando um panteão de orixás que representam forças da natureza e arquétipos humanos, estabelecendo um elo entre o sagrado e a experiência cotidiana. 

Djanira da Motta e Silva (1914-1979), ou simplesmente Djanira, artista cuja obra se fundamenta na valorização das expressões populares brasileiras, encontrou nesse universo um tema fértil para sua produção. Seu trabalho não se limita a registrar visualmente essas tradições, mas atua como um documento pictórico da vitalidade e da resistência da cultura afro-brasileira. 

A pintura Três Orixás, de Djanira, é uma celebração plástica da religiosidade afro-brasileira. A tela retrata três divindades do Candomblé, acompanhadas por músicos que evocam a presença dos ancestrais por meio da percussão. O uso de cores intensas e traços estilizados transcende a simples ilustração de um tema religioso: a artista constrói uma narrativa visual que enaltece as raízes africanas da cultura nacional. Mais do que uma representação de fé, Três Orixás sintetiza o sincretismo religioso e o caráter popular da arte, explorando a interseção entre identidade, memória e tradição. 

A estrutura compositiva da obra é dinâmica e equilibrada. No primeiro plano, os orixás ocupam posição central, irradiando presença e imponência. Ao fundo, músicos tocam tambores, estabelecendo um elo entre a arte e a dimensão ritualística do Candomblé. O uso da cor não é aleatório, mas profundamente simbólico: Oxum, senhora das águas doces e da fertilidade, veste dourado, irradiando prosperidade e delicadeza; Iemanjá, a mãe dos oceanos, aparece envolta em tons azulados, evocando a vastidão e a força das águas; Oxalá, entidade ligada à criação e ao equilíbrio, se manifesta em branco, remetendo à pureza e à sabedoria. 

Os tambores, elementos fundamentais na cultura afro-brasileira, reiteram a centralidade da música nos rituais religiosos. No Candomblé, a percussão não é mero acompanhamento, mas um veículo de conexão entre o humano e o divino, conduzindo os trânsitos espirituais e invocando a presença dos ancestrais. 

Pintora Djanira no seu estúdio, nos anos 1960. 

Djanira desenvolve um vocabulário visual que mescla influências do modernismo com a estética da arte popular. Suas figuras possuem contornos marcados e cores chapadas, remetendo às referências visuais presentes nas pinturas votivas e no artesanato brasileiro. 

A composição plana e a ausência de perspectiva acadêmica conferem à obra um impacto imediato, aproximando o espectador da cena representada. Essa escolha estilística não se restringe a uma opção estética, mas reflete um compromisso com a expressividade e a comunicação direta da mensagem artística. Djanira constrói um universo visual acessível e potente, onde a simplicidade formal intensifica a carga simbólica e emocional da cena. 

Para além de sua força estética, Três Orixás possui um caráter político e social latente. Em um país onde as religiões de matriz africana historicamente enfrentaram preconceito e perseguição, a pintura de Djanira adquire uma dimensão de resistência e afirmação identitária. 

Ao trazer os orixás para o centro da cena, a artista amplia a visibilidade dessas tradições e legitima sua presença no cenário cultural brasileiro. Sua obra contribui para um debate mais inclusivo sobre a diversidade religiosa e reafirma a importância das narrativas marginalizadas dentro das artes plásticas. 

Três Orixás exemplifica como a arte pode ser uma ferramenta de preservação e celebração cultural. A pintura de Djanira não apenas enaltece a tradição afro-brasileira, mas também desafia convenções estéticas, inserindo-se em um movimento mais amplo de valorização das expressões populares. 

Por meio de uma paleta vibrante, de formas estilizadas e de uma temática enraizada na identidade nacional, Djanira reafirma o poder da arte como instrumento de ressignificação histórica e fortalecimento da memória coletiva. Sua obra continua relevante, não apenas como registro de uma tradição, mas como um lembrete da riqueza e complexidade da cultura brasileira.

 

Ficha técnica

Título: Três Orixás

Artista: Djanira

Ano: 1966

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 130,4 cm X 195,5 cm

Localização: Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil

 

Referências:

dailyartmagazine.com

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